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As Imagens e as Vozes da Despossessão: A Luta pela Terra e a Cultura Emergente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)

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Português (change language to English)

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Estudos, depoimentos & referências -> Ensaios 9 recursos (Editado por Else R P Vieira. Tradução © Thomas Burns.)

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Autor:

Roseli Salete Caldart

Título:

Movimento Sem Terra: Lições de Pedagogia

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, foi criado formalmente no Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Sem Terra, que aconteceu de 21 a 24 de janeiro de 1984, em Cascavel, no estado do Paraná, no sul do Brasil. Hoje o MST está organizado em 22 estados, e segue com os mesmos objetivos definidos neste Encontro de 1984, e ratificados no I Congresso Nacional realizado em Curitiba, Paraná, no ano de 1985, também no Paraná: lutar pela terra, pela Reforma Agrária e pela construção de uma sociedade mais justa, sem explorados nem exploradores. Desde a sua criação, o MST incluiu em sua agenda política a luta por escola e a discussão sobre que escola deveria fazer parte da vida da família Sem-Terra.

Este texto trata das lições de pedagogia que podemos apreender da trajetória histórica do MST. Mas antes de enunciar algumas delas é importante situar o contexto da reflexão que permite pensar em um movimento social de trabalhadores do campo como um lugar onde se produzem lições sobre como desenvolver processos de formação humana (2).

O MST entrou em seu 17º ano de existência refletindo mais profundamente sobre duas de suas grandes tarefas, definidas ao longo de sua história: ajudar a acabar com o ‘pecado mortal’ do latifúndio, desconcentrando e tornando socialmente produtivas as terras deste país imenso, o Brasil; ajudar a humanizar as pessoas, formando seres humanos com dignidade, identidade e projeto de futuro. Esta segunda tarefa, talvez a que melhor o MST vem cumprindo desde que começou a ser gestado, é a que nos remete a pensar mais diretamente na dimensão educativa do Movimento.

A obra educativa do MST tem três dimensões principais: (1ª) o resgate da dignidade a milhares de famílias que voltam a ter raiz e projeto. Os pobres de tudo aos poucos vão se tornando cidadãos: sujeitos de direitos, sujeitos que trabalham, estudam, produzem e participam de suas comunidades, afirmando em seus desafios cotidianos uma nova agenda de discussões para o país; (2ª) a construção de uma identidade coletiva, que vai além de cada pessoa, família, assentamento. A identidade de Sem Terra, assim com letras maiúsculas e sem hífen, como um nome próprio que identifica não mais sujeitos de uma condição de falta – não ter terra (sem-terra) – mas sim sujeitos de uma escolha: a de lutar por mais justiça social e dignidade para todos, e que coloca cada Sem Terra, através de sua participação no MST, em um movimento bem maior do que ele; um movimento que tem a ver com o próprio reencontro da humanidade consigo mesma; (3ª) a construção de um projeto educativo das diferentes gerações da família Sem Terra, que combina escolarização com preocupações mais amplas de formação humana e de capacitação de militantes.

Olhando para a história do MST nesta perspectiva, nos encontramos com algumas lições de pedagogia, ou de como os sujeitos de uma luta social e de uma coletividade em movimento se ocupam e se preocupam com educação. Estas lições podem nos ajudar a refletir sobre cada uma das nossas práticas de educação, incluindo aquelas que desenvolvemos nas escolas.

Refletindo sobre estas lições passamos a compreender algo ainda mais profundo: o MST tem uma pedagogia, quer dizer, tem uma práxis (prática e teoria combinadas) de como se educam as pessoas, de como se faz a formação humana. A Pedagogia do Movimento Sem Terra é o jeito através do qual o Movimento vem, historicamente, formando o sujeito social de nome Sem Terra, e educando no dia-a-dia as pessoas que dele fazem parte. E o princípio educativo principal desta pedagogia é o próprio movimento, movimento que junta diversas pedagogias, e de modo especial junta a pedagogia da luta social com a pedagogia da terra e a pedagogia da história, cada uma ajudando a produzir traços em nossa identidade, mística, projeto. Sem Terra é nome de lutador do povo que tem raízes na terra, terra de conquista, de cultivo, de afeto, e no movimento da história.

Esta é a discussão principal que estamos fazendo hoje no MST com nossos educadores e nossas educadoras: como fazer da Pedagogia do Movimento uma referência de nossa prática e de nossa reflexão. Ser educador do MST é conseguir apreender a dimensão educativa das ações do Movimento, fazendo delas um espelho para suas práticas de educação. Trata-se de uma referência de olhar que ajuda a enxergar os limites e desafios destas práticas. Um espelho que também educa o nosso olhar para ver mais do que o MST, mais do que os Sem Terra. A Pedagogia do Movimento se produz no diálogo com outros educadores, outros educandos e outros movimentos pedagógicos. Foi exatamente na interlocução com pessoas e obras preocupadas com a formação humana que conseguimos refletir sobre o MST como sujeito pedagógico. Desde esta nova síntese continuamos nosso diálogo com teorias e práticas da formação humana, e uma reflexão específica sobre o ambiente educativo de nossas escolas.

Deste diálogo entre as práticas do Movimento e as reflexões sobre formação humana construídas ao longo da história da humanidade, um primeiro produto diz respeito à própria concepção de educação. Quando tratamos de práticas de humanização dos trabalhadores do campo como uma obra educativa, estamos na verdade recuperando um vínculo essencial para o trabalho em educação: educar é humanizar, é cultivar os aprendizados de ser humano.

O MST trabalha o tempo todo no limite entre humanização e desumanização; sua luta é de vida ou morte para milhares de pessoas, que fazem da sua participação neste Movimento uma ferramenta de reaprender a ser humano. Este é o dia-a-dia da educação dos Sem Terra em cada ocupação, em cada marcha, em cada acampamento, assentamento... E é este mesmo dia-a-dia que mostra que esta é uma tarefa possível e necessária; e que se é possível resgatar uma humanidade quase perdida, e ajudar pessoas adultas ou já idosas neste reaprender a ser humano, tanto mais possível e necessário é ajudar nesta aprendizagem desde a infância.

A partir desta concepção de educação, há lições de pedagogia que temos conseguido extrair neste contraponto reflexivo entre o cotidiano do MST, as diversas teorias e práticas sobre formação humana, e as preocupações de como fazer a educação dos Sem Terra. São estas lições que nos ajudam a pensar e a repensar também o currículo e o ambiente educativo de nossas escolas.

1. As pessoas são o maior valor produzido e cultivado pelo MST

O Movimento é do jeito que coletivamente as pessoas vêm produzindo a identidade Sem Terra, e fazendo a luta pela Reforma Agrária que enraíza e fortalece esta identidade. Em momentos de conflito social mais acirrado, como o que vivemos hoje, isto fica ainda mais visível: é das pessoas, de cada uma delas, que depende a resistência, a firmeza nos propósitos, a conduta que fica como imagem perante a sociedade; a continuidade diante dos embates mais fortes, a identidade. O MST conseguiu chegar aos 17 anos porque aprendeu a valorizar cada pessoa que integra sua organização, e definiu a formação humana como uma de suas grandes prioridades.

Como educadores precisamos ter claro o que está em questão cada vez que nos encontramos com nossos educandos: estamos diante de seres humanos, que merecem nosso respeito e dedicação, como seres humanos, e como sujeitos de uma organização que luta por dignidade. Nosso trabalho em uma escola onde estudam os Sem Terrinha, por exemplo, precisa ser pensado na perspectiva de uma obra educativa grandiosa, o que nos responsabiliza, fascina e compromete.

Precisamos refletir sempre sobre algumas perguntas básicas: que ser humano estamos ajudando a formar através de nossa prática? Há coerência com a humanidade que a luta do MST vem produzindo e projetando ao longo de sua história? E nossos educandos: que ser humano enxergam quando olham para si mesmos e para seus companheiros do assentamento, do acampamento? Nossas práticas de educação têm ajudado para que se valorizem como pessoas, e assumam a identidade coletiva que ajudam a produzir?

2. As pessoas se educam aprendendo a ser

Uma das coisas que costuma chamar a atenção nas ações do MST é o brio das pessoas que dele participam. Este brio, ou sentimento de dignidade, se produz à medida que estas pessoas aprendem a ser Sem Terra, e a ter orgulho deste nome. E ao assumir esta identidade social, coletiva: somos Sem Terra, somos do MST, as pessoas aos poucos vão descobrindo também outras dimensões de sua identidade pessoal e coletiva: sou mulher, sou negra, sou camponês, sou jovem, sou educadora ... São novos sujeitos que se formam e que passam a exigir seu lugar no mundo, na história; sabem que podem e devem lutar pelo direito de ser humano, onde estiverem, com quem ou contra quem estiverem.

Isto nos remete a pensar que este é um aprendizado humano essencial: olhar no espelho do que somos e queremos ser; assumir identidades pessoais e coletivas, ter orgulho delas, ao mesmo tempo em que se desafiar no movimento de sua permanente construção. Educar é ajudar a construir e a fortalecer identidades; desenhar rostos, formar sujeitos. E isto tem a ver com valores, modo de vida, memória, cultura.

3. As pessoas se educam nas ações que realizam e nas obras que produzem

O MST forma os Sem Terra colocando-os em movimento, o que quer dizer, em ação permanente; ações da dinâmica de uma luta social: ocupações, acampamentos, marchas, manifestações de solidariedade, construção de uma nova forma de vida nos assentamentos, conquista de escolas, atividades de formação... É pela ação que vão aprendendo que nada é impossível de mudar, nem mesmo as pessoas, seu jeito, sua postura, seu modo de vida, seus valores.

As pessoas se educam nas ações porque é o movimento das ações que vai conformando o jeito de ser humano. As ações produzem e são produzidas através de relações sociais: ou seja, elas põem em movimento um outro elemento pedagógico fundamental que é o convívio entre as pessoas, a interação que se realiza entre elas, mediada pelas ferramentas herdadas de quem já produziu outras ações antes (cultura); nestas relações as pessoas se expõem como são, e ao mesmo tempo vão construindo e revisando suas identidades, seu jeito de ser.

Não estamos falando de qualquer ação, ou do agir pelo agir, sem intencionalidade alguma. Estamos falando de ações que produzem obras (materiais ou não) que se tornam espelho onde as pessoas podem olhar para o que são, ou ainda querem ser; e estamos falando principalmente do trabalho e da produção material de nossa existência. Não há verdadeira educação sem ações, sem trabalho, e sem obras coletivas. E, nos lembram as crianças, também não há educação sem jogos e brincadeiras, que também podem ser constituídas como ações coletivas produzindo obras...

4. As pessoas se educam produzindo e reproduzindo cultura

As ações dos Sem Terra são carregadas de significados culturais que aprendem a produzir e a expressar. Numa ocupação, numa marcha ou na organização de um assentamento, não aparece apenas o que estas famílias de trabalhadores são hoje, ou neste momento. Cada ação traz junto o jeito de ser humano que estas pessoas carregam; o peso formador das circunstâncias objetivas de toda sua existência anterior e o tipo de educação que receberam ou viveram. Ao mesmo tempo, sua ação coletiva também costuma ser a negação de algumas tradições que marcaram suas vidas até aqui, e a projeção de valores que aprendem ou reaprendem no processo pedagógico do Movimento. Os gestos, os símbolos, a arte, o jeito de lutar dos Sem Terra encarnam um movimento cultural que nem começa nem termina no momento da ação. Cada sem-terra que entra no MST entra também num mundo já produzido de símbolos, gestos, exemplos humanos, valores, que a cada ação ele vai aprendendo a significar e ressignificar.

Um dos grandes desafios pedagógicos do MST com sua base social tem sido justamente ajudar as pessoas a fazer uma nova síntese cultural, que junte seu passado, presente e futuro numa nova e enraizada identidade coletiva e pessoal. Viver como se luta, lutar como se vive... Esta é uma coerência que tem sido vista como necessária aos objetivos de transformação social do Movimento; também em seus conflitos e desafios permanentes. Memória, mística, discussão de valores, crítica e autocrítica, estudo da história, são algumas ferramentas culturais que o Movimento vem utilizando nesta construção.

Podemos refletir então que educar é também partilhar significados e ferramentas de cultura (expressão de Jerome Bruner apud Arroyo, 2000); é ajudar as pessoas no aprendizado de significar ou ressignificar suas ações, de maneira a transformá-las em valores, comportamentos, convicções, costumes, gestos, símbolos, arte, ou seja, em um modo de vida escolhido e refletido pela coletividade de que fazem parte. Isto quer dizer, entre outras coisas, que educar as pessoas é ajudar a cultivar sua memória, é conhecer e reconhecer seus símbolos, gestos, palavras; é situá-las num universo cultural e histórico mais amplo, é trabalhar com diferentes linguagens, é organizar diferentes momentos e jeitos para que as pessoas reflitam sobre suas práticas, suas raízes, seu projeto, sua vida...

5. As pessoas se educam vivenciando valores

Valores são uma dimensão fundamental da cultura; são princípios de vida, aquilo pelo qual consideramos que vale viver. São valores que movem nossas práticas, nossa vida, nosso ser humano. São valores que produzem nas pessoas a necessidade de viver pela causa da liberdade e da justiça. São valores que movem o empenho dos Sem Terra em fazer dos assentamentos comunidades de utopia, coerentes com a luta que os conquistou.

O MST tem se preocupado muito com o cultivo de valores. Porque sabe que são os valores, traduzidos em cultura, o que deixará como herança a seus descendentes e às novas gerações de lutadores do povo. E valores somente existem através das pessoas, suas vivências, postura, convicções. E eles não nascem com cada um; são aprendidos, cultivados através de processos coletivos de formação, de educação.

Para o MST esta não tem sido uma batalha fácil: cultivar e recuperar valores humanos como a solidariedade, a lealdade, o espírito de sacrifício pelo bem-estar do coletivo, o companheirismo, a sobriedade, a disciplina, a indignação diante das injustiças, a valorização da própria identidade Sem Terra, a humildade..., numa sociedade que dia a dia se degenera nos contravalores do individualismo, do consumismo, da apatia social, do descompromisso com a vida, da desqualificação de quem participa de lutas sociais... Mas é somente assumindo a tarefa de educar e reeducar as pessoas em seus valores que o MST pode ajudar a realizar o que projeta em sua história.

6. As pessoas se educam aprendendo a conhecer para resolver

Nas ações de uma luta social também se aprendem e se produzem conhecimentos, e eles são uma dimensão muito importante da estratégia de humanização das pessoas. Mas uma das lições de pedagogia que temos extraído do dia-a-dia do Movimento é que o processo de produção do conhecimento que efetivamente ajuda na formação das pessoas é aquele que se vincula com as pequenas e grandes questões de sua vida. Quando um Sem Terra precisa conhecer cálculos de área para saber medir a terra onde será feita a agrovila de seu assentamento, ou quando precisa estudar geografia para melhor escolher o lugar da ocupação, certamente este conhecimento terá mais densidade humana e social para ele; quando um Sem Terrinha aprende a medir os materiais de que precisa para começar a construir seu parque de brinquedos, ou aprende a escrever cartas para pessoas de quem gosta, da mesma forma. A expressão "conhecer é resolver", do educador cubano José Martí, nos remete a uma questão até mais radical: ela nos sugere que não há conhecimento verdadeiro fora das situações concretas, da solução de problemas da vida ‘real’. E parece mesmo ser assim, especialmente quando esta questão se coloca no contexto de processos pedagógicos.

Educar é socializar conhecimentos e também ferramentas de como se produz conhecimentos que afetam a vida das pessoas, em suas diversas dimensões, de identidade e de universalidade. Conhecer para resolver significa entender o conhecimento como compreensão da realidade para transformá-la; compreensão da condição humana para torná-la mais plena. Uma lição bem antiga, que a Pedagogia do Movimento apenas recupera.

7. As pessoas se educam aprendendo do passado para projetar o futuro

Foi assim que o Movimento se fez como é: aprendendo dos lutadores que vieram antes, cultivando a memória de sua própria caminhada. A história se faz assim: projetando o futuro a partir das lições do passado cultivadas no presente. A terra guarda a raiz, diz uma das canções do MST. A educação também deve guardar raiz, ajudando no cultivo da memória do povo e na formação da consciência histórica.

Educadores e educadoras têm uma tarefa bem específica sobre isso: seus encontros com os educandos e as educandas podem ser tempo privilegiado para o aprendizado do cultivo da memória coletiva, e do estudo da história mais ampla. Saber que isso pode fazer diferença para que não se apague a memória das dívidas com o povo que não foram pagas, das feridas que não foram cicatrizadas...

É preciso educar cada família Sem Terra para que não se esqueça também de suas raízes camponesas, de sua cultura, e de como estas raízes participam da formação do povo brasileiro. Que todos os Sem Terra aprendam como chegaram à condição de trabalhador rural sem-terra, e de como possuem muitos outros irmãos no mundo inteiro em condição semelhante, também fazendo a luta pela terra e pela Reforma Agrária como nós. E como educadores também precisamos aprender desta memória e de seu cultivo. Não para ficarmos presos ao passado, mas ao contrário, para colocá-lo em movimento e projetarmos o futuro que é melhor para todos.

8. As pessoas se educam em coletividades

O MST é uma coletividade. E nela os Sem Terra aprendem que o coletivo é o grande sujeito da luta pela terra e também o seu grande educador. Ninguém conquista sua terra sozinho; as ocupações, os acampamentos, os assentamentos, são obras coletivas. A força de cada pessoa está em sua raiz, que é a sua participação numa coletividade com memória e projeto de futuro. É fazendo parte do coletivo e de suas obras que as pessoas se educam; não sozinhas, mas em relação umas com as outras, o que potencializa o seu próprio ser pessoa, singular, único.

As pessoas não aprendem a ser humanas sozinhas; sem os laços de sua participação em coletivos elas não conseguem avançar na sua condição plenamente humana. Pessoas desenraizadas são pessoas desumanizadas, que não se reconhecem em nenhum passado e nem têm projeto de futuro. Educar é ajudar a enraizar as pessoas em coletividades fortes; é potencializar o convívio social, humano, na construção de identidades, de valores, de conhecimentos, de sentimentos. Um ambiente educativo é fundamentalmente uma coletividade educadora, acionada ou planejada pelos educadores de ofício, mas compartilhada por todos os seus membros. Numa coletividade verdadeira, todos são, em seu tempo, educadores e educandos, porque todos fazem parte do processo de aprender e reaprender a ser humano.

9. O educador educa pela sua conduta

Muito mais do que pelas suas palavras. A força do MST não está nos seus discursos, mas sim nas ações e na postura dos Sem Terra que as realizam. São as práticas e a conduta do coletivo que educam as pessoas que fazem parte do Movimento ou com ele convivem.

É por isto que no MST temos como referência de educadores pessoas como Paulo Freire e Che Guevara. Eles não foram educadores apenas pelo que disseram ou escreveram; mas pelo testemunho de coerência entre o que pensaram, disseram e efetivamente fizeram e foram, como pessoas e como militantes das causas do povo.

Ser educador é, pois, um modo de ser. Um jeito de estar com o povo que seja mensagem viva dos valores, das convicções, dos sentimentos, da consciência que nos move e que dizemos defender em nossa organização. É ter um compromisso integral, o que não é fácil. Somente um coletivo pode nos ajudar no processo de crítica e autocrítica, nas chamadas e nos afetos que nos mostram quando estamos vacilando, e ao mesmo tempo nos acolhem para retomar o caminho.

10. É necessário conceber a escola como uma oficina de formação humana

Sujeitos não se formam somente na escola. Há outras vivências que produzem aprendizados até mais fortes. A Pedagogia do Movimento não cabe na escola, porque o Movimento não cabe na escola, e porque a formação humana também não cabe nela. Mas a escola cabe no Movimento e em sua pedagogia; cabe tanto que historicamente o MST vem lutando tenazmente para que todos os Sem Terra tenham acesso a ela. A escola que cabe na Pedagogia do Movimento é aquela que reassume sua tarefa de origem: participar do processo de formação humana.

Pensar na escola como uma oficina de formação humana quer dizer pensá-la como um lugar onde o processo educativo ou o processo de desenvolvimento humano acontece de modo intencionalmente planejado, conduzido e refletido para isso; processo que se orienta por um projeto de sociedade e de ser humano, e se sustenta pela presença de pessoas com saberes próprios do ofício de educar, pela cooperação sincera entre todas as pessoas que ali estão para aprender e ensinar, e pelo vínculo permanente com outras práticas sociais que começaram e continuam esta tarefa.

A expressão também nos ajuda a repensar a lógica pedagógica, ou o método pedagógico da escola. Estamos dizendo que escola não é apenas lugar de ensino, e que método de educação não é igual a método de ensino. É preciso planejar estratégias pedagógicas diversas, em vista dos diferentes aprendizados que compõem o complexo processo de formação humana.

Numa escola concebida como oficina de formação humana educadores são arquitetos, organizadores e animadores do ambiente educativo. Isto exige muita sensibilidade e domínio das artes da pedagogia, para ir fazendo as escolhas a partir de uma clara percepção de como está se desenvolvendo o processo educativo em cada educando e na coletividade como um todo; perceber as contradições e não se apavorar com elas: trabalhá-las pedagogicamente; dar-se conta de quais dimensões precisam ser enfatizadas num momento ou noutro; que tipo de ações precisam ser provocadas e com que conteúdos, quais as relações que devem ser trabalhadas e em que momento...

E um aprendizado muito importante: é preciso ser humilde para se colocar sempre na condição de aprendiz do processo. Como aprendizes que somos todos nós, desta complexa arte de construção da humanidade, de que o MST também faz parte; ainda que apenas uma pequena parte.

Porto Alegre, maio de 2001

 

Referências bibliográficas

Arroyo, M. G. Ofício de Mestre, Petrópolis: Vozes, 2000.

Caldart, R. S. Pedagogia do Movimento Sem Terra, Petrópolis: Vozes, 2000.

Caldart, R. S. A pedagogia da luta pela terra: o movimento social como princípio educativo, trabalho solicitado pela 23a Reunião Anual da ANPED, Grupo de Trabalho Movimentos Sociais e Educação, 2000.

Freire, P. Pedagogia da indignação, São Paulo: Editora da UNESP, 2000.

Martí, J. Ideario Pedagógico, Havana: Imprenta Nacional de Cuba, 1961.

Stedile, J. P. e Fernandes, B. M. Brava gente: a trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil, São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999.

Data:

novembro de 2002

Recurso ID:

MOVEMENT610

À Universidade da página bem-vinda de Nottingham

Vozes Sem Terra, site hospedado pela
Escola de Línguas Modernas
Universidade de Nottingham, Grã-Bretanha

Coordenadora do Projeto e Organizadora do Arquivo: Else R P Vieira
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Arquivo criado em janeiro de 2003
Última atualização: 02 / 16 / 2012

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