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As Imagens e as Vozes da Despossessão: A Luta pela Terra e a Cultura Emergente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)

Língua:

Português (change language to English)

Esta página:

Cultura emergente por tipo de mídia -> Composições das crianças 17 recursos (Organizado por Else R P Vieira. Tradução © Thomas Burns.)

    recurso: 1 de 17    Seguinte

Autor:

Else R P Vieira

Título:

As composições e poemas dos sem-terrinha: a história em revisão

As composições aqui reproduzidas refletem uma das várias pedagogias do MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: a pedagogia da história. Como as crianças percebem e representam não só o processo de exclusão social ao longo da história brasileira mas também o processo de reintegração através do Movimento são reflexões que perpassam seus textos.

As composições também refletem os objetivos do projeto educacional do Movimento nos termos de Roseli S. Caldart(1): a recuperação de um senso de dignidade pelos Sem Terra, o desenvolvimento de uma identidade social para os que perderam suas raízes, bem como a construção de um projeto de vida. Lacunas graves compõem a realidade rural brasileira, sendo a falta de acesso à educação básica para muitas crianças um outro componente do quadro geral de exclusão social dos despossuídos. O desenvolvimento de uma c ultura do direito à educação é o que sobressai na apresentação da antologia Feliz Aniversário MST, da qual alguns dos textos aqui incluídos foram retirados:

Também registramos em nossa história, e com especial orgulho, as mais de 100 mil crianças e adolescentes que estudam em escolas conquistadas nas áreas de assentamento e acampamento, as cirandas infantis que aos poucos vão produzindo a cultura do direito à educação infantil no campo; também um movimento de alfabetização de jovens e adultos que envolve cerca de 20 mil educandos, e a formação de técnicos e educadores em cursos de nível médio e superior, assim como diversas outras iniciativas de formação de nossa militância e do conjunto da família Sem Terra(2).

Os textos dos Sem Terrinha aqui incluídos foram selecionados de três antologias que reúnem trabalhos premiados em concursos nacionais anuais de desenho e redação promovidos pelo MST nas escolas dos acampamentos e assentamentos. Os temas, compartilhados com os concursos de gravuras igualmente representado neste Website, se relacionam a três debates importantes(3):

O primeiro deles, O Brasil que queremos ter, proposto em concurso realizado no ano de 1998, fornece às crianças que crescem com a destituição a oportunidade de expressar suas denúncias, expectativas e aspirações de vida. Compõem esse triste mosaico, mais especificamente, o questionamento da exclusão, dos massacres, do preconceito racial; a denúncia da permanência de padrões escravocatas e da negligência do governo, por exemplo, na resolução do problema da irrigação no Nordeste; a afirmação do direito à expressão, ao sonho, a uma sociedade mais egalitária, à moradia, à vestimenta, à alimentação, à assistência médica e à dignidade do trabalho.

Em 1999 foi realizado um segundo concurso em torno dos 15 anos do Movimento, intitulado Feliz Aniversário MST! As alternativas à exclusão e o espaço de esperança propiciados pelo Movimento ressaltam na composição de uma criança nordestina que teria, caso contrário, como única alternativa, o destino de retitante ou morrer de fome, como já ocorrera com o irmão. Uma importante contribuição das crianças é a produção de poemas dentro da tradição do cordel, típica do nordeste e que exerce um papel importante de registro e veiculação da história em sociedades rurais tradicionaois onde predominam o analfabetismo e uma cultura oral. O registro da memória do Movimeto traz à tona sua emergência durante a ditadura e sua expressão contra o autoritarismo através de marchas que revitalizavam também uma consciência política adormecida. Dentro de uma postura mais analítica, as crianças avaliam sua própria experiência de resistência no período passado nos acampamentos e a consciência política dela advinda. Fartura, dignidade e conhecimento são dimensões de vida que as crianças associam ao MST.

O concurso realizado no ano 2000 trouxe à tona um forte questionamento da história oficial, mais especificamente da história do descobrimento do Brasil, comemorado em abril desse mesmo ano. A proposta temática do concurso, Brasil, quantos anos você tem?, introduz, de imediato, um discurso problematizador, inclusive da própria cronologia oficial. Os excluídos da história passam a compor o quadro de atores sociais dessa história que se deseja reconstruída: os negros, os índios, as prostitutas, os menores abandonados e os próprios despossuídos da terra. A farsa democrática, a mera troca de poderes imperialistas e o visível crescimento da pobreza finalmente compõem a agenda dessas crianças que revelam um profundo senso de história e uma acentuada consciência política.

Muitas das gravuras premiadas nesses concursos se encontram no arquivo Gravuras das Crianças neste Website.

1. Veja o ensaio de Roseli S. Caldart neste website.
2. Apresentação”, in Alípio Freire, Silvana Panzoldo and Emílio Alonso (org.). Feliz aniversário MST! São Paulo: Editora Lidador, 2000.
3. Desenhando o Brasil (1999), que também incluiu composições com o tema O Brasil que queremos ter; Feliz aniversário MST! (2000) e Brasil quantos anos você tem? (2001) , organizado por Alípio Freire, Silvana Panzoldo e Emílio Alonso (São Paulo: Editora Lidador). Os dados sobre os autores foram obtidos das mesmas antologias. Todas as composições originalmente tinham os mesmos títulos guarda-chuva acima.Os sub-títulos específicos acrescentados foram retirados dos textos de cada autor. Os textos são aqui reproduzidos com a autorização do MST de São Paulo.

Data:

novembro de 2002

Recurso ID:

CHILDREN172

À Universidade da página bem-vinda de Nottingham

Vozes Sem Terra, site hospedado pela
Escola de Línguas Modernas
Universidade de Nottingham, Grã-Bretanha

Coordenadora do Projeto e Organizadora do Arquivo: Else R P Vieira
Produtor do Web site: John Walsh
Arquivo criado em janeiro de 2003
Última atualização: 02 / 16 / 2012

www.landless-voices.org